quinta-feira, 24 de março de 2011

Ao velho Chico


De todas as tuas imperfeições, a que menos gosto é essa aventura que muito arduamente conseguistes experimentar: não estás mais aqui. E talvez eu o considere tão perfeito porque há tantos anos não estais mais. E, mesmo assim, são vivos em minha memória os teus sons, todos eles. Todos os seus bordões eram musicais: cantando era como me chamavas, assim como a maneira que me ensinastes a responder teu chamamento. O som do teu trompete eu escutava da rua, e me deliciava quando ele fazia dueto com a cadelinha que se sentia inspirada por sua música. (ou seria incomodada?!). Em todas as vezes que saías da tua casa, pela proximidade da minha, passavas na rua, buzinando em figuras musicais reconhecidas instantaneamente, me treinastes os ouvidos. E a correria era grande e a janela do apartamento pequena para tanta gente junta querendo assistir o evento da sua passagem.

Reconheci o teu orgulho em recolher em diversos contos as tuas perfeições carnavalescas - as aventuras de tocador de baile. A tua fidelidade à veia boêmica (sempre muito bem pontuada em teus contos) te levou a quase se fazer ausente no casamento da sua filha primogênita (da mamãe). Lembro de ouvir estas histórias sem nenhum rancor ou vergonha, os risos eram sempre presentes, como se fossem estas as tuas condecorações que não recebestes enquanto militar (músico militar, diga-se de passagem). Eras sempre intimamente notado por mim, chegavas a ser velado por tamanha admiração. (mesmo quando apenas ressoava dentro de uma menina pequena demais para entender o que gravavas nela).

Até para lhe perder você tentou me ensinar por muitos anos, pena que coisas assim não se consegue assimilar. Embrulhastes teu trompete no veludo surrado e levastes o som brilhante consigo, emudecestes. Estamos surdos de você. Mas, sinceramente grata, levo as tuas marcas comigo. E do que existe dentro só a saudade se compadece, a lágrima aquieta e a aceitação pacifica. Não lembro mais do dia que me deixastes, apenas recordo pontualmente todos os anos, o dia que nascestes, e, neste dia eu comemoro a alegria de ter conhecido uma das pessoas mais imperfeitas que visitou esta terra, mas, pelo mesmo motivo, o ser humano mais perfeito que amei.

sua neta.
23.03.2011

4 comentários:

elienir disse...

TATI EU AMEI;TÁ MUITO PERFEITO;A MÃE VAI CHORAR MUITO.NEM SEI SE MOSTRO;MAS VC T´DE PARABENS;FICOU MARAVILHOSO;LINDO;QUE COISA PARAVILHOSA;MEU DEUS;ME FEZ CHORAR E VOLTAR AO PASSADO ;ATÉ A LULU;CACHORRINHA VC LEMBROU RSRSRS;PARABENS BJS

nice disse...

Bom dia Tati!!!

Parabens filha...lindo...
Nem preciso dizer que me emocionei.
Perfeito...vc não esqueceu nenhum detalhe...maravilhoso...
Que Deus te abençoe!!!
beijos

andrekano disse...

Tão bonito o texto e tão linda a ideia de um avô trompetista que li como se ele fosse meu também. Na próxima vez que eu ouvir Marsalis lembrarei do nosso avô.

Tatiani Távora disse...

Então eu agradeço aos queridos da minha família que por aqui (também) se fizeram presentes! ;)