sábado, 19 de junho de 2010

Buarqueando




Homenagear Chico Buarque de Holanda para que?! Basta-me fazer juras de dedicar a vida e o sexo eternamente a esta alma, nascido em berço de ouro e que, mesmo assim, e, apesar de, fala de uma vivência de humanidade e subjulgo que vai além da capacidade que a minha vidinha mais ou menos me dá condições de ter e ser. Mesmo ainda acreditando que sua mais feroz intenção fosse apenas de malandrear e pisotear esse mundo insano e desleal.

Falando sempre de amor como quem consegue conjugar em um único verbo as tensões das palavras guerra e paz. E burlando as armadilhas de uma sociedade escrota falando de guerra moral e de ditadura como quem apenas buscasse a solução para um mal de amor.

Seu Francisco Buarque de Holanda. Daquele que dizem as boas línguas que tem alma de mulher, mas só e, justamente, porque sabe deixar explícito o que quer dizer sem precisar escancarar ou encarnar o tempo inteiro a que veio. É feito de mulher da cabeça aos pés, das dores às confusões. Das amplitudes aos mais do que devidamente cabidos partos. Talvez o único dos homens premiado a sentir em amplitude a confusão bélica feminina.

Ah, se esse azul, particularmente estes olhos azuis entumescidos pela dureza do tempo, soubessem do bem que já me fizeram, descansariam em paz em meio as minhas entranhas e, vislumbrariam ali, o verdadeiro gozo litero-musical da minha alma. Uma puta Budapeste!

Salve, Chico.

"Eu não sei se ela sabe o que fez, quando fez o meu peito cantar outra vez. Nunca será de ninguém, mas eu não sei viver sem, e fim. Eis, o malandro na praça outra vez, caminhando na ponta dos pés como quem pisa nos corações que rolaram dos cabarés. Arrasa o meu projeto de vida: querida, bandida, santa, artista, demente, egípcia, vadia, espinho, penélope, filha, fada, esfinge, lebre, o meu projeto de vida... a falsa, a gueixa, a rosa. Você vai pagar e é dobrado, cada lágrima rolada nesse meu penar. Como vai se explicar, vendo o céu clarear, de repente, impunemente? O que será, que será? Que não tem descanso, que não tem cansaço, que não tem limite, que não tem vergonha, que não tem governo, que não tem juízo? Imagina hoje à noite a gente se perder, a lua se apagar? Tinha cá pra mim que agora sim, eu vivia enfim um grande amor. Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito, exijo respeito, não sou mais um sonhador. Pra quem você tem olhos azuis, e com as manhãs remoça? No sonho de quem você vai e vem com os cabelos que você solta? Eu nunca sonhei com você, Lígia. Na rádio cabeça, se puder, esqueça a menina que você seduz."


Um comentário:

Thalita Yanahê disse...

mostra com tuas palavras os que viu e sentiu
a poesia tá no gosto das coisas vividas....esse texto é sobre vc.