quarta-feira, 7 de julho de 2010

Sou, em mim e neles

Depois de algumas boas teorias sobre felicidade e sobre os motivos que podem fazer uma pessoa feliz, paira sobre o ambiente uma atmosfera de estranheza. Estou em um dia feliz. E por que isso soaria diferente?! Talvez porque a gente aprende a reclamar e a se tornar um tanto quanto chato e insatisfeito pra tudo, logo, declarar felicidade é a novidade. Não, não acredito em felicidade constante, em pessoas sempre felizes, até porque ainda acho que o ser humano precisa de insatisfação para mudar, para buscar a aproximação das diferenças. Sim, por enquanto é nisto que acredito, mas, posso mudar de opinião.

Topo, por que não?!

Este é o bordão de um amigo que, além de nutrir um imenso carinho, me faz rir desmedidamente. E é por este caminho que eu encaro topar o sentir bem deste dia. Tenho lembranças de que, quando criança, eu, mesmo muito tímida, adorava o dia do meu aniversário, lembro ainda do quanto eu podia me sentir o centro. Lembro das festinhas tímidas que sempre haviam e de como aquilo se tornava o evento social da minha rua. E se criança não precisa de motivo para se sentir feliz, imagina o quanto a gente apreciava eventos assim! Éramos crianças com motivo, e éramos suficientes. Pelas confusões de pronúncia dos meses de junho e julho, lembro de que, ainda quando criança, alguém confundiu o mês de aniversário e me entregou um presente no dia sete de junho. Mesmo sabendo que seria faceiramente desmascarada em instantes, não fiz questão de corrigir aquela pessoa. Oras, era eu, criança, com um presente nas mãos, aceitei e vibrei com aquela caixa de perfumes. Eram frascos glamurosos, mas, depois de alguns instantes, não cheiravam tão bem quanto a princípio, nem me importei. Mas já era a vida e suas metáforas querendo me ensinar que a aparência pouco importa, e que o belo está no além da coisa. Enfim, para além das consequências do ato, eu não exitei, me apropriei daquela felicidade de criança, eu topei o presente.

Hoje a menininha cresceu, digamos que tenha chegado na versão 3.0 flex (apenas flex). Não topando qualquer coisa, mas topando muita coisa, por mim e por aqueles que estão no entorno deste meu universo de sentires. E, hoje, o que me faz feliz não são os presentes, nem somente as lembranças de algumas pessoas que me parabenizam. O que torna meu dia limpo, como se as nuvens imitassem as ondas do mar só para alcançar minha visão limitada, é a clareza de sentimento que eu encontro no olhar de algumas pessoas que fazem parte de mim. Como dizia Clarice Lispector em A Descoberta do Amor, eu fui aprendendo a apreender a atmosfera íntima de uma pessoa. Não é um dia no ano que vai delimitar o grau de intimidade, amor ou convivência entre duas pessoas, mas, descubro constantemente, na alma ilustrada no olhar dos que estão a minha volta, a proximidade individual que pode existir entre os seres humanos. Não são as palavras que me levam a sentir os meus, mas sim a consciência de sentimento que os levam a dizer e cometer os seus gestos. Sentir nos olhos de outr'ém os cantos de sua alma, o que a palavra não definiria. Felicidade pra mim é poder sentir isso num almoço corrido no meio da semana, naquele dia que a gente marca de se encontrar em um bar perto da praia e, quando olha pro lado, percebe que todos os que eu gostaria de ver ali estão. É o sentir que aproxima minha alma da felicidade.

Hoje a moça crescida tem consciência de que não adianta omitir-se para receber presentes, ou encantar-se com as cascas dos insumos, meus melhores presentes são os sentimentos que as pessoas se permitem cometer. E estes universos que trocam seus sentires, acontecem na clareza da verdade sem intenção e na conexão das almas. É desse tipo de felicidade que desejo a mim.

"Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima."
[ClariCELISpector]

9 comentários:

Por que você faz poema? disse...

Clarice sempre me encontra.

Sawae disse...

A nós,constantemente.

Dojival Filho disse...

Adorei as memórias da infância. A gente é jovem há muito tempo. Bjão.

Sylvio de Alencar. disse...

Quatorze de julho, exatamente sete dias depois de seu aniversário...; não me encanto: seria melhor ter pousado aqui no dia certo; mas, não me dencanto tampouco: estou (quase) sempre atrasado; parece que o tempo é curto, mas não é, uso-o de outro jeito, meio que 'irresponsável'.

Que palavras, que sentimentos! Caramba! Até pra mim que chegei tão depois ainda fluem carinhosamente pelo ar, deixando-me feliz!

Sei lá se terei alguma resposta, aqui; nem esperarei por uma, basta a que vc já deu com seu post, que abarcou o universo, 'o' em que eu vivo.

Abrçs.

Sawae disse...

Dojival, você faz parte desta memória, e, por diversas vezes, recorro a sua (magnífica) memória para refrescar a minha! rs. Obrigada, querido!

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Sylvio, obrigada pelos elogios, pela chegada (mesmo atrasada). É como disse, ainda me restam 364 dias, pelo menos,para que eu me aventure nessa loucura de Universo Sentido. Abraços!

Sophi (para os íntimos) disse...

Ah menina nos refletimos tão bem...tbm não acredito em felicidade constante,acredito sim em momentos de felicidade...
Você me encanta toda vez que cruza meu caminho,orgulhosa em ser tua amiga Sawae,e não me canso em dizer:
Sou tua fã:

Sophi

Sophi (para os íntimos) disse...

Quero te deixar um texto que gosto muito e exprime bem o que penso e talvez você sobre felicidade:

A felicidade é um susto. Chega na calada da noite, na fala do dia, no improviso das horas. Chega sem chegar, insinua mais que propõe... Felicidade é animal arisco. Tem que ser adimirada à distância porque não aceita a jaula que preparamos para ela. Vê-la solta e livre no campo, correndo com sua velocidade tão elegante é uma sublime forma de possuí-la.
Felicidade é chuva que cai na madrugada, quando dormimos. O que vemos é a terra agradecida, pronta para fecundar o que nela está sepultado, aguardando a hora da ressurreição.
Felicidade é coisa que não tem nome. É silêncio que perpassa os dias tornando-os mais belos e falantes. Felicidade é carinho de mãe em situação de desespero. É olhar de amigo em horas de abandono. É fala calmante em instantes de desconsolo.
Felicidade é palavra pouca que diz muito. É frase dita na hora certa e que vale por livros inteiros.
Eu busco a frase de cada dia, o poema que me espera na esquina, o recado de Deus escrito na minha geladeira... Eu vivo assim... Sem doma, sem dona, sem porteiras, porque a felicidade é meu destino de honra, meu brasão e minha bandeira. Eu quero a felicidade de toda hora. Não quero o rancor, não quero o alarde dos artifícios das palavras comuns, nem tampouco o amor que deseja aprisionar meu sonho em suas gaiolas tão mesquinhas.
O que quero é o olhar de Jesus refletido no olhar de quem amo. Isso sim é felicidade sem medidas. O café quente na tarde fria, a conversa tão cheia de humor, o choro vez em quando.
Felicidades pequenas... O olhar da criança que me acompanha do colo da mãe, e que depois, à distância ,sorri segura, porque sabe que eu não a levarei de seu lugar preferido.
A felicidade é coisa sem jeito, mas com ela eu me ajeito. Não forço para que seja como quero, apenas acolho sua chegada, quando menos espero.
E então sorrio, como quem sabe,que quando ela chega, o melhor é não dispersar as forças... E aí sou feliz por inteiro na pequena parte que me cabe.
O que hoje você tem diante dos olhos? Merece um sorriso? Não pense duas vezes...

Fabio de Melo

P.S: vou ser sincera sou meio as avessas com religião,esse cara é padre mas sabe que gosto do que ele escreve,deve ser pq ele tbm é meio padre as avesssas!hahah

beijo amada minha!

ErikaH Azzevedo disse...

Todo seu poste me fez lembrar uma só frase do Guimarães Rosa minha flor..." Felicidade a gente encontra é nas horinhas de descuido" e tu conseguiste lindamente se delongar em teu texto tendo como base esse pensamento , não por ser este o teu pensamento mas tb o teu sentir...e eu confesso sentir igual...e é preciso ter maturidade pra voltar o olhar e fazer bater o coração no momento certo, curtir o instante pq a felicidade não é constante , ela é mesmo feita de momentos.

Bjos linda

Erikah

Thalita Yanahê disse...

você é um presente generoso
que a gente nem sabe se merece
mas nunca recusa
suas memórias serão minhas também
por que dividimos em algum momento o desafio de ser muitas
amo vc