domingo, 31 de outubro de 2010

Por do Sol de Agora.

O sol fez uma linha de luz no horizonte. As nuvens de um dia de chuva estão simetricamente lineares, conspirando para a geometria alaranjada. As montanhas de uma serra rotineiramente transposta, sem se fazerem de rogadas, produzem a cama para o deleite do Astro Rei.
Alinhados estes imortais elementos em um momento raro, era como se me colocassem os olhos da alma no corpo constantemente violentado pela rapidez dos acasos. Testemunho da carne que goza desse agora. Em um gozo iluminado por este pôr do sol que pode não se repetir mais, e é essa a minha urgência. Outros virão, mas não serão como este, serão outros. E se o espírito não tivesse presenciado essa luz de adoração, teria perdido esse simples presente, presente com laço de nuvens e o presente que já ficou no passado.
E aquele agora?
Agora já virou o passado marcado daquela simetria. Escureceu.
Ficou a ardência em uma memória. Na inocente espera de outros agoras.
[De uma flor da Terra, nascida da Água e que tem o Sol - suas formas, ugências e efemeridades - como objeto de adoração]
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2 comentários:

Thalita Yanahê disse...

O agora é a única realidade
e já sinto falta dele
ainda bem que o fogo arde tanto na memória
quanto na alma da gente

ErikaH Azzevedo disse...

Essa escola de se viver de instantes, sou aluna constante, e sento eu na primeira fila.
Tu desenhaste um milagre que nos acontece todos os dias e nem percebemos acontecer, esses presente diários ,pequeninos, mas que se precisa tanto de um olhar de aumento pra ver e de um coração aumentado pra sentir...


Esse texto lembra-me Agua Viva, esse livro da Clarice que fala tanto de mim...destaco algumas partes que alimentam teu texto e o teu sentir.

"(...)Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais. Cada coisa tem um instante em que ela é. Quero apossar-me do é da coisa. Esses instantes que decorrem no ar que respiro: em fogos de artifício eles espocam mudos no espaço. Quero possuir os átomos do tempo. E quero capturar o presente que pela sua própria natureza me é interdito: o presente me foge, a atualidade me escapa, a atualidade sou eu sempre no já. (...)"

"(...)Fixo instantes súbitos que trazem em si a própria morte e outros nascem - fixo os instantes de metamorfose e é de terrível beleza a sua seqüência e concomitância.(...)"

"(...)Quero escrever-te como quem aprende. Fotografo cada instante, aprofundo as palavras como se pintasse, mais do que um objeto, a sua sombra. (...)"

Pois é minha flor, vês agora o pq que teu post me lembrou imediatamente de agua viva né!

E o que posso te desejar, são instantes esplendorosos, estrondosos de bonitos, tal como vc é.

Meu beijo e carinho de sempre...

Erikah