quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Saudade

"Porque metade de mim é partida,
Mas a outra metade é saudade"
[Oswaldo Montenegro]

Saudade de um canto vazio na página,
ou de um lugar vazio na mente.

Saudade de não entender o que vem depois,
do silêncio que o futuro produzia quando ecoava.

Desaprendi a estática, me embriaguei com o movimento.
Viciei na multidão de tarefas, no desempenhar de funções.

Saudade de amar sem entender, de me apaixonar a cada instante.
De não calcular o sofrimento, de não antever o fracasso de uma emoção.
E do colo que as sensações desse tipo podem prover.

Quando a vida se enche de certezas e concretuidades
O coração se esvazia do inusitado, aprende um pulso único
Trazendo o perigo da inércia.

Saudade do que eu fui e mais ainda do que ainda não consegui ser.
Quem pode prever o enlarguecer e estreitrar-se de uma alma?!

Saudade de quem ainda não conheci, de alguém que ainda não amei.
De mim e de outros alguéns. De correr ao encontro sem saber se ele acontecerá.

Enfim, umas saudades:
dos filmes e músicas que eu ainda não decorei
das chuvas que ainda não me molharam
dos ventos e versos que não me assaltaram.

das mentes que ainda não me arrancaram dos eixos
dos calores que não me dispuseram à levitação
do sobrenatural que ainda não me recolheu daqui.

Saudade de ver minhas certezas se esvaindo entre as surpresas que o Universo me questionará. De ver a inocência incrustada na derme de alguns poucos aqui e ali, mas que são o suficiente para lhe derrubar do seu pedestal de sobriedade e profissionalismo. Saudade, uma planta (pode procurar no dicionário de Botânica) a ser regada em doses de consciência transcendente, sobrenatural e irracional. Perpétua (também do dicionário de Botânica) são as flores duráveis da planta Saudade. Saudade Perpétua, do que é irracional em mim [das asas que ainda não herdei] e do que é desconhecido [porque previsibilidade também cansa!]

Saudade do que não existe.
Ainda.

3 comentários:

Por que você faz poema? disse...

Sou viciado em saudade e faço dela matéria prima da minha poesia. Tenho saudade de quem eu era. Tenho saudade dos filmes que, inevitavelmente, não poderei ver (são muitos e o tempo curto).

"Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo."

ErikaH Azzevedo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ErikaH Azzevedo disse...

Amadurecer é um deixar-se acumular de saudades.O tempo passa e a vida ensina que talvez o ficar adulto seja a forma mais certa de se crescer pro lado errado.
Enqto há saudade, há vida...é ela que nos traz os pedaços de nós deixados pelo caminho, e no que nos devolve tb nos restaura.

Amei o texto minha Sawae e agradeço a essa net por poder te ter sempre assim comigo, em sentimento, essência e palavras...

Orgulho-me imenso de ser tua amiga.

Erikah