quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Pandora


"O que tinha na caixa era nada.
A alma sim, era turva e
ninguém a via."
[Adélia Prado]

Para libertar o passado decidi jogar fora Pandora.
Porém, com qualquer curiosidade absurda, e como a maioria faz, antes de tudo fui ver o conteúdo. Havia meus registros, vários eram os que estavam em algum pedaço de pele e coração que ali deixaram. A caixa era como um porta estandarte de sentidos. Da pseudo aparência de relíquia, surgiam algumas declarações assinadas com sangue, outras absorviam a mesma consistência de sua intenção: se desfazendo em água. De alguns amores restaram dor. De algumas dores sobreviveram algum tipo de amor, daquele que não me preocupa calcular. O mais inusitado e, talvez, previsível, é constatar que o que foi dito, foi lançado... talvez até escrito com fortes rabiscos de caneta e atitudes.

Como todo ser humano, desejei não ver meus erros. Me deparei como motivo de estrago para alguns dos momentos daquela caixa de Pandora. Para alguns amores eu não fui o suficiente, e traí. Mas, agora que mexi no lodo desse poço, arranhei com as próprias unhas suas paredes sujas, revirei e encontrei. Para algumas situações eu fui o instante, em outros momentos eu fui a razão. Em alguns instantes eu fui salvação e, por alguma razão, em outros eu fui a derrota.

Em flashs adrentrei a realidade de momentos trancendentes, circundados por borboletas pretas com pontos de luz nas asas. Uma felicidade imensa de recordar as gargalhadas e insinuações de uma vida cheia de instantes. E, prepotente, pensei: Quem é que ainda almeja eternidade quando se pode passar a vida a construir instantes?!

A vida é um pacote, claro. Mas não quero prisões, quero também as improbabilidades das emoções que atencedem as decepções. Como afirma Duda Bandit: "a queda pode ser doce". Loucura? Talvez. Do que eu desejo, passo adiante a emoção. Ansiando que nada em mim fique retido, que não existam caixas nem Pandoras. O único mito está em conseguir conceber que a vida é feita de instantes decifráveis. Os instantes são instantes, passam. Se passam as dores, os amores também. Deixando livre a existência, recupera-se dia sim, dia não, a transcendência de nada esperar. Desfrutar. Apenas na preocupação em não estancar, pois o que uma vez guardado é, pode mofar.


imagem retirada daqui.

2 comentários:

ErikaH Azzevedo disse...

E eu senti esse como um texto escrito pela Clarice pela pronfundidade nele, intensidade, mesma forma de sentir...isso de instante eu tb adquiri com ela , em Agua viva, meu livro de cabeça, que me lê dos pés a cabeça. Eu não tinha lido teu post amora e hj iria postar um que escrevi que talvez fosse o inverso deste que aqui escreveste...mas num ultimo momento por não estar encontrando uma imagem adequada resolvi postar um que já tinha escrito antes...engraçada essa nossa sintonia, primeiro a imagem, como falaste no facebook e agora tb isso....acho tão bonito isso.

Eu considero que somos feitos sobretudo de permanências,do que se fixa, do que marca, desses instantes de dor e de amor e tantos outros, todos tão importantes....impossível não guardar...não é o guardar que traz o mofo, é o guardar e não mexer, esquecer... é preciso sim movimentar as emoções e isso só fazemos qdo exercitamos a memória, o instante parado e guardado no tempo só mesmo em pensamento...o pensamento deixa todas as vivencias livres, e ficam nele as que querem ficar, as demais se perdem no tempo...só o que a gente ama fica eterno...
Esse viver de instantes é um sentir que tb é muito meu e nessa parte do texto eu muito me vi.Deixo-te um que escrevi em fevereiro que acho complementar tb o teu sentir minha Sawae, que diz assim:

Enfrentando a dor, eliminando o amargo e guardando na memória somente a beleza dos momentos, aprendeu no tear do tempo a tecer fio a fio seu vestir de eternidades, a deixar prevalecer os bons sentimentos... e a ser, a cada nascer e terminar dos dias, o fazer pra acontecer “.

Foi colecionando vivências que aprendeu no tempo a bordar um viver feito de agoras e a alinhavar o já de cada hora por jamais querer ver o instante morrer..

....Erikah Azzevedo...


Adoro tudo que vc escreve minha flor, teus comentários me acrescentam, reforçam meus sentires, e é sempre tão bom , qdo vc passa vc não vai, fica, pq te guardo sempre em mim.

Saudades sim.

Bjos muitos.

Erikah

Sophi (para os íntimos) disse...

O importante é poder sangrar,sentir,viver,jorrar!
que lindo amada minha,você é demais...

saudades gigantescas!
sa sua fã:

Sophi